dezembro 20, 2005

Ternura


Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão Ferreira

dezembro 19, 2005

Amor e Paixão


Amor é brisa suave,
é aconchego, é carinho,
voo cadente da ave
indo em busca do seu ninho.
É bruma leve do mar
em manhã de primavera,
desejo louco de estar
com alguém que se espera.

Volúpia louca é paixão,
mar revolto, tempestade...
É amar sem a razão,
é só loucura e vontade.
Paixão é amor sem juízo,
sem norte, recta ou tino,
errante sem ter destino,
o inferno no paraíso!

Amor é paz, é ternura,
é o frescor da aragem,
a mais cálida coragem,
maior ato de bravura.
É o céu lá nas alturas,
é a mais sublime imagem!

Paixão é inconsequência,
é demência desmedida,
é o nada, é ausência,
é o fim – a despedida!

Amor é tudo, enfim
é a vida iluminada,
é a afirmação, é o sim,
é o encontro na chegada!

Antonio Manoel Abreu Sardenberg

dezembro 18, 2005

Voo com Pouso Certo


O sono venceu a vigília
Também ele quebrou a dor
O silêncio que o pensamento
Ocupava por distracção

Breve os olhos se fecharam
por trás das pálpebras cerradas
Os sentidos esvaneceram
As ideias, no quarto, pereceram
Deram sua vez à solidão.

O sono caiu beneplácito
Vindo como bom agasalho
a um real entristecido
quebrando na luz apagada
o dia que já tinha morrido.

Eu nunca pensara no sono
como um bem tão inocente
como um toldo que à dor, à ânsia
encobre essa tristeza que
da noite só quer o seu fim.

E ainda como simples prémio
Vêm os sonhos nos superar
Uma fantasia que intercepta
a nossa vontade de acordar.

Regina Souza Vieira

dezembro 17, 2005

Antítese Perfeita


Num dia chuvoso, lados opostos se encontram
Lábios mornos, corpos quentes
Se inflamam...
Tudo original e ao mesmo demodê,
Nostálgico como a nostalgia
Se unem dando vida a um romance entre o bem e o mal
Que misturam amor colossal, ódio quase mortal...
O sim se mistura com o não...
O dia termina no ocaso das trevas
E na penumbra da noite as paredes do quarto confessam
Antíteses perfeitas, exactas...
O frio, o calor
A noite clama...
Medo, ousadia
A cama...
O tudo, o nada
O suor flúi nos corpos ardentes...
A fidalguia, o populacho
A sedução impúdica...
Meiguice, açoite
Harmonia longínqua...
Desabrocha o ciúme ciumento
Nascente da desconfiança confiante,
Se amam, se odeiam.
Nunca foram francos
Tão pouco burlaram o espanto
São sinceros, são belos
Mentem com toda persuasão
Vivem tardes primaveris em noites de verão...
Ela é bela
Ele o rei da quimera
Ela refuta
Ele insiste, o sonho existe
Eles são brilhantes
São opostos, são tortos
Mas são amantes....

Allan Julianelli

dezembro 16, 2005

Remorso


Às vezes uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste Outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude.

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

Olavo Bilac

dezembro 15, 2005

Se eu Pudesse Guardar os Teus Sentidos


Se eu pudesse guardar os teus sentidos
Numa caixa de prata e de cristal,
Entre conchas do mar, búzios partidos,
Pequenas coisas sem valor real...

Se eu pudesse viver anos perdidos
Contigo, numa ilhota de coral,
Para além dos espaços conhecidos,
Mais longe do que a aurora boreal...

Se eu soubesse que o olhar de toda a gente
Te via, por milagre, repelente,
Que fugiam de ti como da peste...

Nem assim abrandava o meu ciúme,
Que é afinal o natural perfume
Da flor do grande amor que tu me deste.

Reinaldo Ferreira

dezembro 14, 2005

O Teu Olhar


Não mais que desejar,
Assim, seria belo descrever
O que visualizam os meus olhos
Quando encontram o teu olhar!...
E nesse encontro,
Não mais que descrever,
Seria poder experimentar
Essa fascinante magia
Que se irradia em meus olhos
Quando encontram teu olhar!...
E percorrer seus enlevos
E rebelar-me em carinhos,
Ou poder, simplesmente,
Teu rosto,
Com os dedos acariciar...
E os teus lábios,
Bem no cantinho,
Com os meus lábios tocar....
O quanto isso seria bom...
E até sonhar!
Se os teus olhos e os meus
Pudessem se encontrar
Num só olhar!...
Num só encontro!...

Lúcia Leite

dezembro 13, 2005

Fragilidade


Talvez pudesse o tempo parar
Quando tudo em nós se precipita
Quando a vida nos desgarra os sentidos
E não espera, ai quem dera

Houvesse um canto para se ficar
Longe da guerra feroz que nos domina
Se o amor fosse como um lugar a salvo
Sem medos, sem fragilidade
Tão bom pudesse o tempo parar
E voltar-se a preencher o vazio
É tão duro aprender que na vida
Nada se repete, nada se promete
E é tudo tão fugaz e tão breve

Tão bom pudesse o tempo parar
E encharcar-me de azul e de longe
Acalmar a raiva aflita da vertigem
Sentir o teu braço e poder ficar

E é tudo tão fugaz e tão breve
Como os reflexos da lua no rio
Tudo aquilo que se agarra e já fugiu
É tudo tão fugaz e tão breve

Mafalda Veiga

dezembro 12, 2005

As Pombas


Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E a tarde, quando a rígida nortada,
Sobra, aos pombais, de novo, elas, serenas
Ruflando as asas, sacudindo as penas
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam
E eles aos corações não voltam mais...

Raimundo Correia

dezembro 11, 2005

Tomara


Tomara que você volte depressa
que você não se despeça
nunca mais do meu carinho
E volte, se arrependa e pense muito
que é melhor se sofrer junto
que viver feliz sozinho
Tomara que a tristeza te convença
que a saudade não compensa
e que a ausência não dá pé
Que o verdadeiro amor de quem se ama
tece a mesma antiga trama e não se desfaz
Que a coisa mais bonita desse mundo
é viver cada segundo como nunca mais.

Vinicius de Moraes