janeiro 13, 2006

Viver Não Dói


Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.
Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projecções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.

Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente connosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.

O sofrimento é opcional.

Carlos Drummond de Andrade

janeiro 12, 2006

Sonho Virtual

És real na minha fantasia
Te toco, te vejo, te sinto
Aqui tão perto, agora
Posso até sentir teu cheiro
Aroma doce da manhã
Estás aqui, sussurrando
Belas palavras ao meu ouvido
És um sonho real
Um sonho virtual, que me alimenta
Se teus dedos roçam minha pele
Tremo, um arrepio me percorre
Possuir-te é um sonho
Que acalento em silêncio
E eu te sinto aqui
Passeando palavras
Me cobrindo a face de beijos
Não, não quero acordar
Enquanto sonho, meu mundo é real

Angélica Teresa Almstadter

janeiro 11, 2006

Necessito...


Necessito de um olhar
sincero sobretudo,
que afague minha alma,
que anda carente de tudo...

Necessito de um abraço
de verdadeira saudade,
que me lembre de repente
o que é sentir felicidade...

Necessito ser ouvida
por tempo indeterminado
e que quando me cale,
seja pra ficar ao teu lado...

Necessito ser necessária,
com certa intensidade,
no vazio das horas,
necessito ser lembrada...

Angela Lara

janeiro 09, 2006

A Insustentável Leveza de Ser Mulher...


A mulher é o único ser da criação
que abriga dentro de si, um templo.

Só ela sabe ser Deusa
e ser Santa,
ser Rainha e ser Mulher,

Ser forte quando precisa,
e ser frágil quando quer.

Mulher que gera vidas,
e cria a humanidade.
Que sabe ser estrela,
e sabe ser saudade.

Só ela sabe ser
mulher e ser menina,
ser sedutora
e ser seduzida.

Ela é Luz quando brilha,
é paz quando
acalma e tranquiliza.

Ela é música
quando é alegria,
é ritmo vibrante
quando improvisa.

Ela é tempestade
quando chora,
ou um Vulcão
quando Ama.

Ela sofre discriminação,
é incompreendida,
mas sabe superar.

Sofre preconceitos,
tem lá os seus defeitos,
mas sabe perdoar.

É mulher e é amante,
é companheira
e é guerreira,

Ela pode até perder a luta,
mas nunca perde
os seus ideais...

Ela pode até perder
os seus amores,
mas nunca
desiste de sonhar.

É feminina,
sensível,
amável,
sem perder a força.

Ela é ternura
quando envolve,
é segredo quando encanta.

Assim como a lua,
ela tem as suas fases,
todas imprevisíveis,
todas incomunicáveis.

A mulher
é o maior de todos
os mistérios,
que alguns
Homens
ainda não
conseguiram desvendar.


Lisiê Silva

janeiro 08, 2006

Poema da Utopia


A noite caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.

No alto, a utópica Lua vela comigo
E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! Se o espectáculo findou
Deixa-nos também dormir.

Fernando Namora

janeiro 07, 2006

Desperta


Desperta, amor, das plácidas
Margens de meus braços.
Desperta do gozo pleno
Dos meus e dos teus ais.
O tempo corre pra longe
E dormes a noite que te prometi.
Se afago teu corpo, insaciável,
É que careço do tempo que perdi.
Desperta, amor,
Já vem tão logo outro dia,
E distante reviverei teus apelos,
E por amor tecerei nossos dias,
Que passados,
Tem pressa do futuro.
Desperta, amor,
Amanhã não estarei dentro de ti.
E se me levo longe,
Eu sei que ainda estarei por perto,
E por certo ainda,
Habitarás em mim.

Giselle Del Pino

janeiro 06, 2006

Desnorte


Irrompe à força
este sentir que não sei,
não domino,
e em canto brota em mim
o grito

meus passos agitam-se
nas sombras do caminho,
meus braços animam-se
ensaiando gestos,
amputados na busca
contorcidos na forma de abraçar

meus olhos,
silenciados mares
drenaram torrentes,
esgotaram seu sal.

e a besta acoitada em mim
rasga o que esperei
e em pedaços me devolve
a vida.

Ângela Santos

janeiro 05, 2006

A Morte Não Existe


Em Memória a António Santos que como Sogro, Avô, Pai e Marido foi uma pessoa que estará sempre presente nos nossos corações.

Não existe a morte. Os astros se vão
Para surgirem em outras terras e
Sempre brilhando no diadema celeste,
Espalham seu fulgor incessantemente.

Não existe a morte. O chão que pisamos
Converter-se-á pelas chuvas estivais,
Em grãos dourados; em doces frutos;
Em flores que luzem suas policromias.

Não existe a morte. Embora lamentemos
Quando o corpo denso de seres queridos
Que aprendemos a amar, sejam levados
De nossos amorosos braços, agora vazios.

Eles não morreram. Apenas partiram,
Rompendo a névoa que nos cega aqui;
Para nova vida, mais ampla, mais livre,
De esferas serenas, de brilhante Luz.

Embora invisíveis aos nossos olhos;
Continuam nos amando. Estão connosco.
Nunca esquecem os seres queridos,
Que pelo mundo, atrás deixaram.

Não existe a morte. As folhas do bosque
Convertem em vida o ar invisível;
As rochas se desintegram para alimentar
O faminto musgo que nelas se agarrou.

Não existe a morte. As folhas caem;
As flores murcham e desaparecem;
Esperam apenas durante as horas hibernais
O retorno do suave alento da Primavera.

Embora com o coração despedaçado,
Coberto com as negras vestes de luto,
Levemos seus restos à obscura morada
E digamos que eles morreram.

Apenas despiram suas vestes de barro,
Para revestirem com trajes cintilantes.
Não foram para longe, não nos deixaram;
Não se perderam; nem mesmo partiram.

Por vezes sentimos na fronte febril,
Suave carícia ou balsâmico alento;
É que nosso espírito ainda os vê,
E nosso coração se conforta e tranquiliza.

Sempre juntos a nós, embora invisíveis,
Continuam esses queridos espíritos imortais;
Pois, em todo o infinito Universo de Deus,
Só existe Vida - NÃO EXISTE MORTE.

John McCreery

janeiro 04, 2006

Todas as Cartas de Amor são Ridículas ….


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos

janeiro 03, 2006

Paixão e Amor


Paixão é posse, é loucura,
Amor é liberdade é ternura.

Paixão é desvario, confusão,
Amor é carinho, é comunhão.

Paixão é atropelo, é desatino,
Amor é confiança no destino.

Paixão é querer tudo controlar,
Amor é ter certeza no voltar.

Paixão é uma insensata obsessão,
Amor é como uma luz no coração.

Paixão é como tempestade tropical,
Amor é uma chuva benéfica e igual.

Paixão é avassaladora e até mortal,
Amor é guardar um eterno e belo ideal.

Paixão faz ferver todo o teu sentir,
Amor te acalma, serena e faz sorrir.

Paixão pode ser um ruim sentimento,
Amor é maior que o firmamento.

Paixão é uma terrena fraqueza,
Amor é olhar o espaço e ver beleza.

Paixão te faz sofrer e querer saciar,
Amor te faz querer todo o bem ofertar.

Paixão custa a conter e sufocar,
Só o amor nos faz querer controlar.

Paixão faz o outro gemer e sofrer,
Amor faz sentir felicidade e renascer...

Arlete Piedade